Jorge de Sena: as andanças do demônio português

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Exilado da sua amada pátria, Portugal, Jorge de Sena teve de dividir sua existência entre dois continentes: o americano e o europeu. Nascido na cidade de Lisboa no ano de 1919, Jorge Cândido de Sena, Filho desfrutou dos benefícios da alta vida burguesa, ainda que a custo de uma suposta infância infeliz. Assim como fizera seu pai, Jorge nutria o desejo tornar-se oficial da marinha – desejo que depois se revelaria mais pelas viagens, andanças e paixão pelo infinito mar, do que pela carreira militar.

Ao final de sua viagem de instrução, a que embarcara em 1937 – viagem que o levou aos portos de São Vicente (Cabo Verde), Santos (Brasil), Lobito e Luanda (Angola), São Tomé (São Tomé e Príncipe) e Dakar (Senegal) –, foi-lhe comunicado que apesar de seu excelente desempenho nas demandas teóricas do curso, seria excluído da Marinha Portuguesa por falta de algumas das qualidades exigidas para um oficial daquele órgão militar. No entanto, sete anos mais tarde, seria designado como oficial miliciano (ou oficial de forças armadas que não faz parte do quadro permanente), para acompanhar um destacamento militar transferido para os Açores, fato que despertaria ainda mais sua paixão pelo mar e pelas andanças pelo mundo – revelando-se principalmente através das cartas que escrevia a sua então noiva, Mécia.

No entanto, após aquela missão, Jorge de Sena nunca mais tornou à marinha. Para ele, aquilo seria desgostoso ao pai, ex-oficial do mesmo órgão, então resolveu ingressar no curso de Engenharia Civil numa tentativa de amenizar o desprestígio de ser excluído do batalhão naval. Terminado o curso em 1944, não lhe motivou grande interesse e nesse período escrevera ensaios, cartas, artigos e poemas em abundância. Em 1940, quando iniciava o curso de engenharia, sob o pseudônimo de Teles de Abreu, publicou seus primeiros poemas nos Cadernos de Poesia. Em 1942 publicou Perseguição, seu primeiro livro de poesias – a obra não foi muito bem recebida por conta de uma dita “obscuridade e dificuldade de leitura” das poesias.

Jorge de Sena entre duas ditaduras

Em 1947 acabou por iniciar a carreira de engenheiro. Em 1949 casou-se com Mécia e, ainda exercendo a profissão de engenheiro, iria ocupar todo o seu pouco tempo remanescente com as atividades de tradutor e revisor até 1959. No dia 12 de Março de 1959, Jorge de Sena teve participação num golpe revolucionário abortado. Houve várias prisões, deixando uma sensação de “quem será o próximo” no ar. Aí começou sua jornada de exílio de Portugal.

Em agosto daquele mesmo ano, aproveitando o convite para participar do IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, pela Universidade da Bahia e, logo em seguida, sendo convidado a permanecer como catedrático de Teoria da Literatura, em Assis, São Paulo, resolveu ficar e dar início ao exílio no Brasil. Dois anos depois transferiu-se para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara como docente de Literatura Portuguesa. Defendeu sua tese de doutoramento em Letras e livre docência em Literatura Portuguesa em 1964. Em 1965 fora convidado – e aceitara – a dirigir cursos avançados e teses de doutoramento em literaturas de língua portuguesa na Universidade de Winsconsin, Estados Unidos. Lá, em 1970, foi transferido para a Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, como docente de Literatura Comparada. Na Califórnia viria a falecer, em 1978.

Jorge de Sena no Brasil

No período de cerca de seis anos em que esteve no Brasil, escreveu grande parte do romance Sinais de Fogo e a totalidade dos contos que compõem as Novas Andanças do Demónio, além de obras nos campos da poesia, teatro, ficção e ensaios de crítica literária.

Suas obras, principalmente as escritas no Brasil, são particularmente interessantes pelo tom amargo dos primeiros anos do exílio e desse exílio dar-se justamente nos anos em que se iniciavam o golpe e a instauração da truculenta ditadura militar brasileira.

Consciente da literatura que produzia e do seu vanguardismo estético, Jorge de Sena escreveu a novela O Físico Prodigioso – que fez parte, antes de sua publicação solo, da reunião de contos Novas Andanças do Demónio. Ambientada na era medieval, a obra é permeada por uma libertinagem sexual e de valores que é – ou pode ser – justamente a concretização do amor humano. O enredo revela-se uma grande ironia, articulada em torno do manual (religioso) de moral português o Orto do Esposo (na verdade um resgate alegórico dessa obra do final do século XVI). Ainda há grande especulação tanto sobre a trajetória da personagem do Físico (bastante semelhante à via crucis), quanto aos elementos que compõem o enredo e que se poderiam ser uma mistura com a própria vida do autor (ele chega a dizer no prefácio de uma das edições da novela que “pouco do que eu alguma vez escrevi é tão autobiográfico como esta mais fantástica das minhas criações totalmente imaginadas”).

Existem também registros não ficcionais de seu período de exílio no Brasil e nos Estados Unidos, como a obra Correspondência – Registros de uma convivência intelectual, lançado pela editora Unicamp em 1997. Nela estão reunidas as correspondências trocadas entre Jorge de Sena e seu amigo e também professor que conhecera durante a sua docência em Araraquara, Dante Moreira Leite.

Nas correspondências contidas no livro, registram-se não apenas uma conversa entre dois amigos, mas também uma visão dos cidadãos contemporâneos à época da ditadura – algumas vezes uma visão acadêmica – que assolava o país. Tem um “saborzinho histórico” e sem a contaminação daquele velho jogo de interesses e favores que dominou (domina?) a imprensa e o mercado editorial no Brasil. Verdadeiramente interessante.

Estudos sobre Jorge de Sena na atualidade

Em 1995 o romance Sinais de Fogo – que, como dito anteriormente, foi escrita em grande em terras brasileiras – teve sua adaptação para os cinemas, dirigida por Luís Filipe Rocha. Em 2011 foi lançado o volume póstumo América, América que reúne textos sobre a vida política e cultural estadunidense entre os anos em que o autor viveu naquele país, de 1968 e 1978.

Enfim, este artigo ainda é ínfimo no que diz respeito a descrever a carreira desse proeminente – e, infelizmente, ainda não tão conhecido no país – escritor abrasileiradamente português. É minha dica de leitura para quem gosta de se aventurar no mundo fantástico, biográfico e de resistência.

Infelizmente grande parte dos livros lançados por Jorge de Sena estão atualmente descontinuados, ou tiveram suas edições pausadas. Uma compilação com sua obra completa, biografia e vasto material relacionado ao autor pode ser encontrada no excelente site da Universidade Federal do Rio de Janeiro: ler Jorge de Sena.

Referências:

Jorge de Sena: Perfil do Homem e da Obra. Lisboa, Eugênio. Editorial Presença – Londres, 1983.

O Físico Prodigioso. De Sena, Jorge. Edições 70, 4ª edição – Lisboa, 1977.

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